Prestes a ser lançada em meio a pandemia pelo Banco Central, como meio de sanar a falta de circulação de espécies em papel, o anuncio da nova nota de 200 reais, trouxe de volta fantasmas de crises passadas, que ainda assombram muitos brasileiros, Dá taquicardia e hiperinflação em quem lembra dessas épocas de altas e muitas baixas.
Em pleno estado de um país que vive crises de grandes negócios, a necrópoles desse Brasil, resolve imprimir 200 reais, que era o que Guedes e Bolso queriam dar de auxilio emergencial, a esmola prá o povo tentar sobreviver a tal da gripezinha e resfriadinho.
Pode até não significar nada, nem prenúncio de inflação ou qualquer outra danação econômica (além da recessão e desemprego de sempre) mas esses 200 reais, são a nota de um escárnio escarrado em nossas fuças.
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A curva de mortes da pandemia ficou chata o suficiente, mas só quando vira assunto de sempre nas mesas de bares que teimam em reabrir. Um mar de gente indo às praias sem ter feito metade da lição de casa contra a pandemia. Cansa ter que viver tanto caos, sobretudo quando é o caos o próprio poder vigente que está no comando. A curva tá na mesma, na média, mas lá no alto Diante do vazio que engole gente, estamos constantemente no auge da escalada desse tal novo normal. Elevamos o nível de aceitação das mais de mil mortes diárias, pessoas que se vão para vala do esquecimento. Partem, sem que se conceda aos entes queridos que ficaram, a chance de realizar o ritual de despedida.
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Tudo se perde no papel filme dessa longa temporada do seriado Brasil. A cada novo capitulo, são milhares de mortes, vidas ceifadas por apenas só um mau mundial. E a tal da curva, tá no bico do uco, com platô pior do que os índices de violência, nossos comuns números trágicos, que agora se somam a mais essa pandemia, soterrando ainda mais gente, muito além do comum retratado nos noticiários sanguinolentos da mídia. E o levante prometido se resume a uma resma de notas de repúdio emitidas por congressistas, empresários e entidades que deveriam dizer muito mais que só palavras que serão queimadas nas fogueiras das vaidades deste estado genocida. Quanto pesa as notas de repúdio emitidas nos últimos tempos? É possível medir o tamanho de tantas palavras vazias, impressas em papeis desperdiçados? Nem precisavam se dar o trabalho de pensar o genérico texto da nota, já que o estudante Daniel Sarsi Orta facilitou o serviço, criando um site Gerador de Notas de Repúdios, com variadas opções de sentenças para se fingir indignação à vontade. Imagine o tanto de árvores tombadas? Pensem no quanto de vidas extinguidas na tribo indígena pela peneira lotada de iodo e vírus do garimpo ilegal?
Um jogo milenar, agora é reflexão para saber qual a sua posição ideológica neste jogo do mundo
Neste jogo ideológico, quem é você? Uma das peças, que se move pela vontade dos senhores do sistema, que executam todas as jogadas? Seria você parte do tabuleiro, que serve voluntariamente o seu espaço e o seu corpo como uma das tantas colunas que sustentam os fundamentos desta partida?
Então, você é um jogador, como eu, como ele, que tem o seu passe livre, comprado pelos empresários que mantem essas jogadas funcionando? Você estaria então na plateia. assistindo, passivamente, junto a toda massa de gente, o pão e o circo do entretenimento alienante, das partidas ininterruptas que, subliminarmente, influenciam as decisões do jogo da sua vida? Claro, você pode achar que é o narrador, que segue direitinho o script, usando sua livre expressão para projetar a voz das ideias de outrem? Ah, então você se acha que é dono do jogo? que empreende na prática, e com eficiência, resultados as ordens mandatórias do alto comando deste jogo.
Ãh? quer dizer que você nem sabe
que tem um jogo acontecendo? Cada movimento neste jogo mexe no placar das emoções, pensamentos, atitudes, sentimentos de todos os personagens participantes desta jogada. Seja você quem for. Então, fique acordado. e quando a próxima jogada iniciar, esteja você onde estiver, refaça a pergunta lá do início: Neste jogo ideológico quem é você? Repita este movimento quantas vezes for necessário, até educar a sua consciência e você se tornar um habilidoso profissional em pensar fora da caixa deste jogo.
Uma lição começa a ser aprendida, só que na basa da porrada
O que ele queria dizer com aquilo? - pensou Aristiliano enquanto caia. O impacto que o atingiu pôs tudo em sintonia lenta. Em sua reflexão, podia jurar que via seu próprio corpo, agora inerte, se inclinando para o chão. O agressor ainda mantinha a pose de quem se orgulhava do feito.
- essa foi na veia, seu filha da puta!
Aristiliano não imaginava que um comentário pueril sobre o cotidiano explodiria daquele jeito. O octógono social assistia satisfeito o UFC gratuito no meio da rua. O pagamento desse payperview era interromper o trajeto para o trabalho. Valia tudo para não perder o show.
O assunto iria render ao menos até a hora do almoço. Um mais empolgado, chegaria esbaforido, largando suas coisas sob a mesa do escritório e, para desviar a atenção do seu atraso, principalmente do chefe, já começaria sua narrativa:
- mano, o bicho pegou lá no terminal.
Aristiliano seria um assunto passageiro. Sem nota digna. Nada mais que uma história real que, aos poucos, se tornaria piada, gatilho para alguém relembrar um causo de violência. O som do soco que levou seria mal interpretado jocosamente por quem relatasse o ocorrido. O julgamento rápido e cruel de, se ele mereceu ou não a porrada, seria concluído em poucas palavras. O tribunal do senso comum é implacável e surpreendentemente previsível.
- O que ele queria dizer com aquilo?
A pergunta se mantinha travada como o único músculo possível de se mover diante da concussão provocada pelo murro. Era mais que filosofia. Foi certeiro mesmo, atingindo o ponto nevrálgico da coisa. O punho fechado, que foi de encontro a lateral direita do queixo, concordaria:
- Valeu cada falange fraturada.
Mesmo quando o efeito anestésico da adrenalina passar, o orgulho pelo acerto será mais forte que a dor e maior que o inchaço. Aristiliano chegou a ver uma expressão de arrependimento na face do agressor.
Por um breve instante, o instinto humano que parece dividir espaço com o inerente lado animalesco que todos têm dentro de si, se figurou no espirito do seu algoz, externalizado em seu rosto. Durou pouco.
A aprovação vinda da multidão que assistia falou mais forte.
A doença da normalidade já se tornou um bem comum por aqui
A morte epidêmica está na crista da onda, enquanto seguimos enfrente com uma elite brazuca, que se sente europeia o suficiente, para reabrir por conta a vida que sempre normalizaram ter: as próprias vidas deles importa, mais nada.
Neste tsunami tétrico de corpos pretos sufocados, existe uma classe média de gente que sempre achou comum surfar na superfície dos confortos sociais aquáticos.
São insensíveis às lutas.
Não se sentem classe trabalhadora.
Mas com a cara (pálida de madeira) e a (falta de) coragem foram, invadir as praias. Nem se importaram com o rigor do ultraje de suas cruéis escolhas.
Ressalto: são escolhas feitas, não obrigações que a dura vida impõem, diferente de quem tem que trabalhar no dia de hoje para garantir o pão de amanhã. Vidas privadas de privações, despejam feito esgoto a céu aberto o exemplo mais trágico que o profundo conceito do mundo liquido de Bauman tentou discorrer.
Por entre os dedos da necropolítica planejada, escorre sangue dos mortos aos montes nos morros, pelas valas e ruas. Pelas Veias Abertas da América Latina, escorre os profundos traumas de países em pleno estado de crises. É comum termos por aqui, os tidos como líderes fortes,homenzinhos que se acham grandes. Mesmo sendo marionetes do imperialismo americano, é bem normal causarem o estrago de sempre.
Eu cansei de tanto falar que havia algo de errado, mas ninguém me ouviu. Preferiram continuar insistindo que era só um episódio isolado, um surto momentâneo.
Juro que tentei falar normalmente, com a linguagem mais comum possível, para se conectar com o que entendem. Sem sucesso.
Gritei em versos fortes, de poesias de escárnio, expondo os podres poderes que participam.
As minhas palavras foram em vão. Gastei munição à toa e anda fui alvejado. Para quem puxou o gatilho que destroça nosso emocional, mais uma terça feira comum. Em meio a tanto esgotamento carnal e mental, sem saneamento do discurso de ódio público, se esvazia os tachos conceituais e transbordam as teorias da conspiração ideológica.
É coisa nostra normalizar. Cansamos de tanto achar comum os absurdos, cegos e mudos desta nossa sociedade sem sentidos. A confusão é patológica. Normal e comum se equivalem numa amalgama esquizoide.
A Normose em pleno estado vegetativo. Naturalizamos tudo. O normal por aqui é isso. Se a maioria aprova, não há espécie, aceita que dói menos; ao menos finja bem, para que o conjunto de normas da sociedade permaneça normal. Pandemônios de pandemias de séculos e décadas atrás, seguem mais escancarando do que novidades. Diante do paradoxo que apareceu estendido na areia da praia, nossa fome por matar nossa ansiedade moderna é tanta, que comemos a deusa maia e o rabo de sereia antes da ceia.
Na verdade, depois de processar que o sabor cai bem no gosto do mercado, passamos a processar a novidade repetidamente nas gôndolas. Sem novidades que fantasiamos estar separado de certas pessoas e da natureza que concretamos com cal, cimento, trator, corrente, serra elétrica e queimadas. Até agora, tudo Normal nessa nossa natureza morta.
Sem novidade o egoísmo prático, que faz do corpo alheio objeto apenas de desejo.
Assim, normalizamos relacionamentos abusivos. Até aqui, tudo normal nas cabeças escrotas de machos da confundilândia trintaporcentozista.
A curva por aqui nem chegou no pico, e já somos o destaque de país que carrega nas constas mais mortes, mais omissões do estado.
A caneta não tremeu dessa vez, diante das centenas punhos cerrados sem pulso. Perdemos muitas vidas. É normal, para quem leu até aqui, se pergunte ou pergunte ao autor: Afinal, de que novo normal estamos falando?
Só de questionar tanta normalidade, já começamos a sair da zona de conforto para estar na zona de confronto de tristes realidades que, por aqui, ainda são comuns serem normalizadas.
Manay Deô é um personagem heterônimo, fruto da imaginação do redator publicitário Elidio Santos — seu ortônimo. É escritor, artista e sua veia literária mistura alma da poesia com sedução da publicidade, linguagens DNA do seu estilo e ser discursivo: o Poeta Publicitário.